TEMPO QUE FOGE


Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de “confrontação”, onde “tiramos fatos à limpo”. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.

Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: - Gosto, e ponto final! Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.

Já não tenho tempo para ficar dando explicação aos medianos se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a “última hora”; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo.

Ricardo Gondim

Soli Deo Gloria


KARDEC E EDUCAÇÃO


Será que é possível pensar em educação sem pensar em escola? Grande parcela da nossa sociedade não conhece e não cogita que possa existir educação fora da escola. Ousando resumir a Pedagogia, afirmaríamos que a educação não se dá necessariamente na escola.

Esta “ciência” demonstra que o ser humano tem uma capacidade ilimitada para aprender. Entretanto nem sempre nos educamos quando aprendemos. Quando aprendemos algo “negativo”, não há educação. Educação é sempre um aprendizado no sentido “positivo”.

Mas este conceito de educação foi construído ao longo dos séculos e recebeu a colaboração de ilustres pensadores até chegar à maturação.

Um tcheco chamado Comênio (Comenius), Bispo Protestante (entre os Séc. XVII e XVIII), ao propor na sua obra “A Grande Didática: Estabelecendo Toda a Arte de Ensinar Todas as Coisas a Todos os Homens” seria reconhecido por estabelecer o marco inicial da Pedagogia do Futuro.

Em 1762, Jean Jacques Rousseau afirmou na sua obra “O Emílio” que “viver não é respirar, é agir”. Por suas idéias, que provocaram uma verdadeira revolução na educação, é considerado “o Copérnico da Educação Moderna”.

Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), influenciado pelas propostas de Comênio e Rousseau, entendia que a educação era um dever cristão e um ato de amor. Numa época em que a Escola estava sendo repensada, para se tornar mais atraente e convidativa aos alunos, Pestalozzi inova sugerindo que a Escola era a extensão da família. Este homem, “O Apóstolo da Educação”, no Castelo de Yverdun foi responsável pela educação de Hippolyte Léon Denizard Rivail. Este por sua vez, mais tarde adotaria o pseudônimo de Allan Kardec para trazer ao mundo a Doutrina Espírita.

Rivail foi por durante 30 anos professor, dedicando-se intensamente à educação, quer seja ensinando, quer seja editando obras com vistas à melhoria no processo de ensino, especialmente na França.

Henri Sausse – Biógrafo de Kardec diz que foi em Yverdun que se desenvolveu as idéias que deviam torná-lo um observador atento e meticuloso, um pensador prudente e profundo.

Desde quando Rivail decidiu aprofundar-se no estudo do fenômeno das “mesas girantes”, trabalha intensamente com esforço e dedicação editando a primeira obra da Codificação Espírita – O Livro dos Espíritos.

“A primeira característica de O Livro dos Espíritos, nem sempre percebida, é a sua forma didática. Não fosse Kardec um Pedagogo, habituado à disciplina Pestalozziana, e os Espíritos do Senhor não teriam conseguido na Terra um tão puro reflexo dos seus pensamentos”. (J. Herculano Pires – Pedagogia do Espírito).

Herculano Pires nos diz que O Livro dos Espíritos não é um tratado de Pedagogia... Mas é evidente que se trata de um verdadeiro manual de educação, no mais amplo sentido do termo.
Paralela à evolução da Pedagogia (que tem objetivos específicos), mas não muito distante dessas tendências percebemos particularmente na pessoa de Allan Kardec e em geral no Espiritismo, tratamento semelhante para a importância da Educação. Com a diferença clara de que o Espiritismo transcende algumas barreiras, comprova e demonstra a verdadeira essência do homem, da vida e do Universo.

Afirma o ilustre Codificador do Espiritismo, em suas anotações registradas no livro Obras Póstumas que “É pela educação, mais do que pela instrução que se transformará a Humanidade”. Estabelece assim que educação é mais ampla e profunda do que a “instrução” normalmente recebida na escola.

Concordando com a idéia de que educação é sempre positiva, seria de perguntar – Existe proposta de educação mais positiva (a redundância aqui é proposital) do que a Doutrina Espírita?

Sendo o Espiritismo o “Cristianismo Redivivo”, este traz à Humanidade, em última análise, a Pedagogia de Jesus.

Fontes de Consulta:
A pedagogia do Espírito – J. Herculano Pires
Obras Póstumas – Allan Kardec
Textos Pedagógicos – Hippolyte Leon Denizard Rivail
Evolução Cultural da Educação – Apostila “Docência do Ensino Superior” – UFRJ - SEAD

por Jeferson Ricardo Spode Flores


Este artigo foi publicado originalmente em
http://www.portaljovem.com/conheca_mais/kardec_educacao.htm



RECUPERANDO A ENERGIA MENTAL

Energéticos mentais instantâneos
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Técnicas mostram como recuperar energia mental de imediato

Quando necessitar de uma rápida carga de energia, tente uma destas técnicas. Você se sentirá mais alerta e concentrado.

1 - Beba uma xícara de chá de hortelã para se refrescar e reanimar a mente. Estudos no Japão apontaram que a hortelã pode estimular a função cerebral, aumentando a concentração e o desempenho mental.

2 - Experimente os florais de Bach para concentrar a mente. O clematis é recomendado para os que têm tendência a sonhar acordados; o white chestnut, para preocupações constantes; o wild rose para a apatia e o olive, para a exaustão física. Acrescente duas gotas do floral num copo com água e beba durante o dia, quando sentir necessidade.

3 - Saia da mesa ou da poltrona e caminhe em ritmo acelerado durante cinco minutos para melhorar a circulação e retomar os processos mentais com mais energia.

4 - Para estimular a mente cansada, faça uma massagem na própria cabeça. Esfregue o couro cabeludo ligeiramente, depois bata a ponta dos dedos ao redor da cabeça. Passe os dedos pelo cabelo, jogando fora todos os pensamentos desagradáveis.

5 - Coma um punhado de castanhas-do-pará, ótima fonte de magnésio, que revigora e ajuda a desanuviar a mente confusa. Elas também contêm selênio, um antioxidante mineral.

6 - Visualize uma cor que o deixe animado. Laranja é próprio para eliminar a letargia ou o cansaço. Sente-se ou deite-se confortavelmente, feche os olhos e imagine a cor penetrando pelos dedos das mãos e dos pés e envolvendo todas as partes do corpo enquanto você inspira profundamente. Faça uma pausa e sinta o corpo formigar e se aquecer. Expire e imagine a cor desanuviando junto com a respiração, liberando todos os bloqueios mentais. Abra os olhos e sinta-se despertar.

7 - Sinta o aroma de um óleo essencial que viajará em segundos pelo sistema límbico até o cérebro, na parte associada ao humor e à emoção. Escolha a bergamota para reanimar, a erva-cidreira para a falta de ânimo, a laranja para melhorar o humor e a rosa para aumentar a prontidão; ou crie uma mistura de óleos. Acrescente cinco gotas de óleo essencial a 10 ml de óleo de amêndoas e coloque num vaporizador, ou pingue o óleo num lenço e inale quando necessário.

8 - Absorva a energia de seu chacra coronário, visto como um dos locais mais importantes de concentração de energia, de acordo com a filosofia aiurvédica. Visualize uma esfera de luz pulsando e girando acima da sua cabeça. Inspire a energia alguns momentos, absorvendo a capacidade de aumentar o poder cerebral, que promove abertura da mente e combate o cinismo. Se estiver sozinho, tente dizer "iiii" durante esse processo para ajudar a reequilibrar este chacra.

9 - As posições de ioga conhecidas como invertidas enviam um suprimento de sangue "novo" ao cérebro com efeitos revigorantes. Os principiantes devem tentar o halasana (o arado). Alunos de ioga mais avançados podem optar pelo salamba sirsasana (parada de cabeça), que exige mais habilidade.

10 - Massageie acupontos-chave para canalizar a energia e estimular a circulação do qi ou energia vital. Para aliviar a dor na cabeça e no rosto causada por estresse mental, pressione a área em que seus polegares e indicadores, direito e esquerdo, encontram-se. Mantenha a posição por cinco minutos, depois solte.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u4425.shtml

ANTOINE DE SAINT-EXUPERY

"Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos"

“Em 1942, Antoine de Saint-Exupéry escreveu este pensamento que contém a essência de seu clássico O Pequeno Príncipe e que permeia toda a sua obra, caracterizada pelo lirismo e por uma profunda reflexão sobre a condição humana. Ao longo dessas seis décadas, milhões de leitores se encantaram com esta e outras belas frases extraídas de seus textos.”

”Seus pensamentos sobre amor, amizade, felicidade, responsabilidade, força moral, beleza, solidão, criatividade e liberdade nos levam a refletir sobre nossa própria existência, nossos relacionamentos e o mundo em que vivemos.”

“Escritor premiado e traduzido em mais de 130 idiomas, o terceiro filho do Conde Jean de Saint-Exupéry e de Marie de Fonscolombe nasceu em 1900 em Lyon, na França.” (Observe-se que na mesma cidade nasceu o Codificador do Espiritismo – Allan Kardec)

“Com 26 anos tornou-se piloto pioneiro e foi um dos primeiros a voar à noite, em pequenos aparelhos a hélice, sem conforto ou segurança. As suas experiências e as aventuras dos legendários companheiros do correio aéreo, que criaram as primeiras rotas internacionais da Europa à África e à América do Sul, serviriam de inspiração para sua segunda paixão: a literatura.”

“Ao sobrevoar o deserto do Saara e os Andes, Saint-Exupéry pôde não apenas observar – e descrever – a beleza arrebatadora do céu coberto de estrela e da Terra, mas também refletir sobre os limites e a grandeza da natureza humana. Daí a força de seus escritos, recheados de passagens tanto de sua vida pessoal quanto profissional.”

“O acidente de avião no Saara em 1935 e até mesmo as raposas com que fez amizade no local em 1927, por exemplo, estão presentes na fábula de O Pequeno Príncipe. Já a paisagem dos Andes e a forte ligação com os companheiros embelezam trechos de Terra dos Homens. Sua luta para lidar com os inúmeros aspectos da natureza humana revelados durante a Segunda Guerra Mundial aparece em Cidadela, manuscrito inacabado que guardou com ele nos últimos anos de sua vida, assim como em Escritos de Guerra, uma coletânea de artigos, notas e cartas para a família e os amigos, produzidos entre 1939 e 1944 e publicados quarenta anos após a sua morte.”

Nosso desejo seria o de transcrever toda a obra e deixar ao leitor a satisfação de encontrar na literatura deste Autor, uma profunda sabedoria poética. Assim nos permitimos transcrever apenas alguns trechos, ao nosso próprio gosto, extraídos de suas principais obras e que estão resumidas no livro “Felicidade, Amor e Amizade – da Editora Sextante:

FELICIDADE

“Dar é lançar uma ponte por cima do abismo da sua solidão.” (Cidadela)
“É preciso que eu tolere duas ou três lagartas se quiser conhecer as borboletas.” (O Pequeno Príncipe)
“Fiz mal em envelhecer. Foi uma pena. Eu era tão feliz em criança...” (Piloto de Guerra)

AMIZADE

“As pessoas não tem mais tempo de conhecer nada. Compram tudo pronto nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, elas não tem mais amigos.” (O Pequeno Príncipe)
“Aqueles que são diferentes de mim não me prejudicam, muito pelo contrário, eles me enriquecem. Nossa unidade se fundamenta em algo mais elevado do que nós mesmos – no ser humano... Pois ninguém quer ouvir seu próprio eco nem encontrar a própria imagem em um espelho.” (Piloto de Guerra)
"Só estou ligado àqueles a quem eu me dou. Só compreendo aqueles a quem me uno”. (Piloto de Guerra)

AMOR

“A experiência nos mostra que amar não é olhar um para o outro, e sim olhar juntos na mesma direção.” (Terra dos Homens)
“O amor não é pensar, mas ser.” (Piloto de Guerra)
“As paredes da prisão não podem confinar aquele que ama. Ele é de um império que não está nas coisas, mas sim no sentido das coisas, e zomba dos muros.” (Cidadela)

RESPONSABILIDADE

“As pessoas esqueceram esta verdade”, disse a raposa. “Mas você não deve esquecê-la: você se torna eternamente responsável por aquilo que cativa.” (O Pequeno Príncipe)
“É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar. A autoridade se baseia antes de tudo na razão.” (O Pequeno Príncipe)
“Mas tu, ó sentinela, só tens a dominar-te a disciplina do cabo que te vigia. E os cabos, a disciplina que lhes impõem os sargentos que os vigiam. E os sargentos, a disciplina dos capitães que os vigiam. E assim por diante, até chegar a mim. Eu não tenho mais que Deus para me governar. Se duvidar Dele, será como uma porta falsa no deserto.” (Cidadela)

FORÇA MORAL

“As tempestades, a bruma e a neve vão incomodá-lo algumas vezes. Pense, então, em todos aqueles que já passaram por isso e diga para si mesmo: ‘o que eles conseguiram eu também posso conseguir’.” (Terra dos Homens)
“Vitória, derrota – estas palavras não tem sentido algum. A vida está por baixo dessas imagens e já prepara novas imagens. Uma vitória enfraquece um povo, uma derrota desperta outro. A derrota que sofremos hoje é talvez uma promessa da verdadeira vitória. Só o acontecimento em marcha é que conta.” (Vôo Noturno)

O ESSENCIAL

“É muito mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se você consegue fazer um bom julgamento de si próprio, demonstra verdadeira sabedoria.” (O Pequeno Príncipe)
“Quando nos abandonamos, não sofremos. Quando nos abandonamos, mesmo à tristeza, não sofremos mais.” (Correio Sul)
“As pessoas grandes adoram números. Quando a gente fala de um novo amigo, elas nunca se interessam em saber como ele realmente é. Não perguntam: ‘qual é o som da sua voz? Quais são seus brinquedos preferidos? Ele coleciona borboletas?’ Mas sempre perguntam: ‘Qual é a sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto o pai dele ganha?’ Só então elas acham que o conhecem.” “O essencial da vela não é a cera que deixa suas marcas, mas sim a luz que ela liberta.” (Cidadela)

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“A guerra marcou profundamente o autor, que deixou a França ocupada para viver dois anos exilado nos Estados Unidos. Em 1943, logo após a publicação de O Pequeno Príncipe, Saint-Exupéry se realistou na Força Aérea Francesa. Ele desapareceu sobre o Mediterrâneo em 1944, numa missão de reconhecimento. Seu corpo – assim como o de seu amado pequeno príncipe – nunca foi encontrado, mas suas palavras permanecem, para que adultos de todas as idades possam lê-las com os olhos e senti-las com o coração, na busca pelo entendimento daquilo que é essencial.”

Baseado na obra: Felicidade, Amor e Amizade: A Sabedoria na Obra de Antoine de Saint-Exupéry. Saint-Exupéry, Antoine. Tradução de Maria Luiza Newlands da Silveira. (et al). Editora Sextante. RJ, 2003.

por Jeferson Ricardo Spode Flores

Este artigo foi publicado originalmente em
http://www.portaljovem.com/conheca_mais/antoine_exupery.htm



A INFLUÊNCIA DA MÍDIA


Você já percebeu o quanto nós somos bombardeados diariamente com ruídos estridentes, sons atordoantes, anúncios, imagens e estímulos para as mais diversas coisas? Pare e observe. Na rua, no trabalho, em casa. Em muitos lugares isto acontece. E não pára por aí. A maioria sem proveito para nossas vidas. Na definição de Vera Lúcia Franco, essas idéias que nos chegam aos sentidos são puro lixo. Transcrevemos abaixo, reportagem de sua autoria.

“Para alguns solitários, a voz da TV ou do rádio, por exemplo, pode trazer de fato uma reconfortante sensação de companhia até que adormeçam. Mais do que nunca, porém, é fundamental percebermos como a grande quantidade de informações que recebemos através dos meios de comunicação de massa é capaz de interferir em nossa vida subjetiva, em nossas relações sociais e na realidade que nos cerca. Na verdade, eles não só informam e divertem, mas também influenciam valores, crenças e comportamentos. Tal influência, evidentemente, pode ser positiva ou negativa. Não há como negar que, através dos tempos, muitos filmes e novelas vêm, por exemplo, questionando preconceitos e denunciando comportamentos pouco éticos. Por outro lado, não podemos esquecer que, não raro, personagens do cinema ou da telinha desempenham o papel de garotos-propaganda, exibindo produtos de higiene e toalete, alimentos, bebidas, lazer, moda, cultura e, sobretudo, conceitos.

Em outras palavras, por trás do divertimento há uma verdadeira indústria achatando e formatando a consciência das pessoas, que foram reduzidas a meros consumidores. De indivíduos livres e capazes de ter opiniões próprias, passamos a ter necessidades criadas pela mídia; de modo geral, somos governados pelos meios de comunicação. Sofremos um processo de massificação que por um lado nos torna iguais e, por outro, nos propõe a ilusão da liberdade, já que nos faz acreditar que somos livres para escolher.

Se estamos cada vez mais confinados a um sistema de valores que nos é imposto, como podemos então falar em liberdade e autonomia? Se nos vestimos da mesma maneira – a isso chamamos moda – e criticamos quem não se veste como nós; se consumimos os mesmos produtos; buscamos status, dinheiro, conforto e fama; se, na verdade, pensamos e desejamos as mesmas coisas, onde estão as diferenças?

Em seu livro Violência e Psicanálise, J. F. Costa afirma que em cada contexto histórico a sociedade forma um tipo psicológico ordinário, em resposta ao que ela necessita no momento. Esse tipo é nada mais nada menos do que a universalização de particularidades emocionais previamente definidas como normais. Tal processo acaba numa violência simbólica, uma vez que se impõe à pessoa a realidade que ela deve adotar como referencial exclusivo para a sua orientação no mundo. É, portanto, através da intimidade ideológica que se alcança a adaptação das pessoas, a qual facilita o controle social.

Ao aceitar essa padronização, o indivíduo enclausura a sua subjetividade dentro de si, passando a mostrar o que se espera ou o que se quer dele. Ou seja, ele começa a viver uma aparência e, quanto mais se ajusta a ela, menos compreende seus desejos, sentimentos e a sua própria existência; gradativamente, perde a consciência de quem realmente é.

Assim, num mundo com tantas informações, ruídos e apelos, a vida vai descrevendo seu rumo vertiginosamente: ninguém mais tem tempo para nada, principalmente para tomar consciência sobre o que de fato está lhe acontecendo.

Modernamente, o fantástico aparato tecnológico nos leva a crer que estamos mais próximos uns dos outros, porém, estamos cada vez mais enredados no individualismo, na superficialidade e na competição, que acaba por resultar na violência.

Ao escrever 1984, George Orwell alertava para o perigo de estarmos caminhando para uma sociedade totalitarista. Na ficção, o Grande Irmão vigiava toda a sociedade através de câmeras e microfones, 24 horas por dia, cerceando ao máximo, o exercício da liberdade individual de seus habitantes. Apesar de isso não estar muito claro para a maioria das pessoas, no fundo é o que está nos acontecendo atualmente através da perda de valores essenciais da vida em troca dos valores de consumo. Gradativamente, graças a essa massificação, não estamos perdendo a liberdade individual de pensar e sentir?

Aparentemente inspirado no roteiro do livro, em 1999 surgiu na Holanda o programa Big Brother, reality show criado pela Endermol, uma das grandes empresas de entretenimento da Europa. Seu objetivo é levar o público a uma interação cada vez maior com seus participantes.

O Big Brother, como se sabe, é um jogo que mistura em um mesmo cenário pessoas de temperamento e nível sociocultural diferentes e que, de preferência, têm um belo rosto e um corpo esbelto. Elas devem conviver em uma casa durante dois meses, dia e noite, sob a vigilância de câmeras e microfones espalhados por todos os espaços em que se movimentam.

Através da TV, o público acompanha diariamente o desenrolar dessa convivência, opina sobre a atuação de cada um e até decide o rumo que as coisas devem tomar. Os participantes, por sua vez, sabem como está seu Ibope diante do público e que disso depende sua vitória ou desclassificação.

O drama de quem participa do Big Brother é, no fundo, muito parecido com o dos cidadãos comuns; a idéia central do programa é ver como reagem as pessoas sob confinamento e vigilância constantes. No final, vence aquele que conseguir cativar o telespectador, cabendo-lhe, além da fama, uma rica soma em dinheiro.

Nesse show de irrealidade, parece ficar claro como a indústria do entretenimento é capaz de nos sugar para fora de nós mesmos. No caso do Big Brother, isso se dá através da identificação com o drama dos participantes do programa. Ao cedermos à tentação de acompanhar suas mazelas cotidianas, nos deslocamos da nossa vida e caímos prisioneiros de uma profunda alienação. Sob a égide da interatividade, passamos a viver a vida de um personagem, tentando dar soluções para o seu drama interior.

Muitos, com certeza, acham essa uma excelente distração, na medida em que, por certo tempo, nos ajuda a não pensar nos nossos próprios problemas. Enquanto isso, porém, a nossa vida vai passando e cada vez mais vamos nos distanciando dela para tomar parte de uma realidade que não passa de uma aparência bem organizada.

A imaginação – é verdade – tem uma função importante no desenvolvimento humano, pois ela nos ajuda a compreender o mundo, a deduzir o que provavelmente vai acontecer, ou mesmo a intuir e compreender emocionalmente este ou aquele acontecimento. É através dela que podemos nos distanciar da realidade e expressar a profunda ansiedade humana em experienciar algo diferente do que existe. Se levado a extremos, porém, o exercício da imaginação pode obscurecer a nossa visão da realidade, fazendo com que nos percamos dentro de um mundo de faz-de-conta.

Num universo aparente como o nosso, os limites entre o verdadeiro e o falso se confundem e fica difícil distinguir o que é real do que é pura ilusão. À semelhança dos participantes do Big Brother, estamos presos a uma estrutura de valores preconcebidos que nos desconecta da nossa verdadeira essência; assim, ficamos vulneráveis a todo e qualquer tipo de manipulação. No reality show o público representa esses valores, modelando o comportamento de cada participante do programa através da crítica e do elogio; se mostrar o que dele se espera, ele ganhará fama e dinheiro, caso contrário, será rejeitado através do chamado paredão.

Mas e na vida real, quem vence esse jogo? Provavelmente o mais novo tipo psicológico ordinário que esta sociedade tecnológica, consumista e desumana elegeu: aquele que não se importa de esvaziar-se de toda a sua vida interior. Aqui, porém, o prêmio é na verdade um castigo: a perda do contato com o próprio self para representar uma identidade fictícia e ideal, exigida pela sociedade de consumo.

Fugir desse processo, sem dúvida, não é tarefa das mais fáceis. Talvez o primeiro passo nesse sentido seja determinar que tipo de pessoa queremos ser e que valores básicos desejamos para nortear a nossa vida.”

(Revista Planeta – Dez 03 – Texto de Vera Lúcia Franco)

por Jeferson Ricardo Spode Flores



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